Deolane afirma que recebeu R$ 24 mil de cliente como advogada e nega crime de lavagem de dinheiro para o PCC
22/05/2026
(Foto: Reprodução) Deolane afirma que recebeu R$ 24 mil de cliente como advogada e nega crime
A influenciadora digital e advogada Deolane Bezerra afirmou na quinta-feira (21), durante audiência de custódia após ser presa em uma operação contra lavagem de dinheiro ligada ao PCC, que os R$ 24 mil citados pela investigação foram recebidos enquanto ela atuava como advogada de um cliente investigado. Segundo ela, o valor se refere ao exercício da profissão e não tem relação com crime.
Segundo Deolane, os fatos investigados são antigos e ocorreram entre 2019 e 2020, período em que ela exercia a advocacia para o cliente mencionado pela polícia. A influenciadora afirmou ainda que o próprio relatório policial reconheceria que ela acompanhava o investigado como advogada.
“Eu fui presa por estar advogando por uma quantia de R$ 24 mil depositada em minha conta por um cliente que consta no próprio relatório da polícia o acompanhamento meu como advogada ao cliente”, disse. “Eu fui presa no exercício da profissão." (veja acima).
Deolane foi presa na Operação Vérnix, do Ministério Público de São Paulo (MP-SP) e da Polícia Civil, que investiga um esquema de lavagem de dinheiro ligado ao Primeiro Comando da Capital (PCC).
Deolane Bezerra na saída da sede da Polícia Civil em SP
William Santos/TV Globo
O valor foi depositado de forma fracionada em 12 operações de R$ 2 mil no mesmo dia, segundo o relatório. Neste caso específico, o depositante não foi identificado.
A polícia considera esse método (fracionamento de depósitos em dinheiro sem identificação) uma estratégia típica de lavagem de capitais, utilizada para ocultar a origem ilícita dos recursos e evitar alertas automáticos dos órgãos de controle financeiro.
Segundo os investigadores, a influenciadora teria papel central na movimentação financeira do esquema. A investigação aponta que recursos atribuídos à facção eram depositados em contas ligadas a ela, misturados a valores de outras atividades e posteriormente devolvidos ao grupo criminoso.
A Justiça determinou o bloqueio de R$ 27 milhões atribuídos à influenciadora e decretou a prisão preventiva dela sob argumento de risco de fuga.
Defesa pede prisão domiciliar
Durante a audiência de custódia, a defesa de Deolane também pediu que ela responda ao processo em prisão domiciliar. Os advogados alegaram que ela é mãe de uma criança de 9 anos e citaram entendimento do Supremo Tribunal Federal (STF) que permite substituir prisão preventiva por domiciliar para mães de crianças pequenas em casos sem violência ou grave ameaça.
Segundo a defesa, os fatos investigados ocorreram em 2020 e não envolvem violência.
“A prisão hoje é ilegal em razão de que ela é mãe de uma criança de 9 anos”, afirmou uma das advogadas.
Na quinta, Deolane afirmou que estava "trabalhando" ao ser questionada pela TV Globo se estava lavando dinheiro para Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, considerado o chefe do PCC.
Ao sair da sede da Polícia Civil, no Centro de São Paulo, Deolane também afirmou que "a Justiça vai ser feita".
Ela foi presa preventivamente em um condomínio de luxo, em Alphaville, na cidade de Barueri, na Grande São Paulo. A advogada foi classificada como integrante do PCC, atuando como "caixa" do crime organizado.
Inicialmente ela foi levada para a Penitenciária feminina de Santana, Zona Norte da capital. Na manhã desta sexta-feira (22), ela foi transferida para a Penitenciária Feminina de Tupi Paulista, no interior do estado.
Deolane passou as últimas semanas em Roma, na Itália. O nome dela chegou a ser incluído na lista da Difusão Vermelha da Interpol, um mecanismo internacional para captura de foragidos, mas ela retornou ao Brasil na quarta-feira (20).
Em nota, a defesa da advogada ressaltou a inocência de Deolane e afirmou que "os fatos serão devidamente esclarecidos por esta".
Operação Vérnix
No total, foram seis mandados de prisão preventiva, além de ordens de busca e apreensão. Os alvos da Operação Vérnix são:
Deolane Bezerra
Marcola
Alejandro Camacho, irmão de Marcola
Paloma Sanches Herbas Camacho, sobrinha de Marcola
Leonardo Alexsander Ribeiro Herbas Camacho, sobrinho de Marcola
Everton de Souza, o "Player", operador financeiro do grupo
Marcola e Alejandro Camacho estão presos na Penitenciária Federal de Brasília e serão comunicados sobre a nova ordem de prisão preventiva.
Até a última atualização da reportagem, os sobrinhos de Marcola estavam foragidos e os demais alvos haviam sido presos.
Também foi determinado o bloqueio de 39 veículos avaliados em mais de R$ 8 milhões e de R$ 357,5 milhões em bloqueios financeiros dos investigados.
O influenciador digital Giliard Vidal dos Santos, que é considerado um filho de criação por Deolane, e um contador também foram alvos de busca e apreensão.
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A influenciadora e advogada Deolane Bezerra chega ao DHPP (Departamento Estadual de Homicídios e de Proteção à Pessoa), na região central de São Paulo, nesta quinta-feira, 21 de maio de 2026. A operação do Ministério Público (MP) e da Polícia Civil de São Paulo prendeu Deolane Bezerra sob suspeita de ligações com o Primeiro Comando da Capital (PCC). O Ministério Público suspeita que a influenciadora tinha ligação com um esquema de lavagem de dinheiro estruturado por meio de uma transportadora de valores do interior de São Paulo controlado pela facção
Leco Viana/The News 2/Estadão Conteúdo
Sobre a investigação
A investigação começou em 2019 com a apreensão pela Polícia Penal de bilhetes e manuscritos com dois presos na Penitenciária II de Presidente Venceslau. O material deu origem a três inquéritos policiais sucessivos, cada um responsável por revelar uma nova camada da estrutura criminosa investigada.
O primeiro inquérito teve como foco direto os dois presos que estavam com os manuscritos. A análise do material apreendido permitiu identificar referências a ordens internas da facção, contatos com integrantes de elevada posição hierárquica e menções a ações violentas contra servidores públicos. Esses dois indiciados foram condenados e inseridos no sistema penitenciário federal.
Entre os trechos analisados, chamou atenção dos investigadores a citação a uma “mulher da transportadora”, que teria levantado endereços de agentes públicos para subsidiar ataques planejados pela organização criminosa.
Essa menção deu origem ao segundo inquérito policial, que buscou identificar quem seria a mulher mencionada nos bilhetes e qual seria a relação da transportadora de cargas com o grupo criminoso.
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Segundo as investigações, a mulher foi identificada como Elidiane Saldanha Lopes Lemos, então sócia da transportadora Lopes Lemos. Ela já foi condenada, mas está foragida.
As diligências conduziram a uma empresa sediada em Presidente Venceslau, posteriormente reconhecida como empresa de fachada usada pelo crime organizado para lavagem de dinheiro.
A investigação deu origem à Operação Lado a Lado, que em 2021 revelou movimentações financeiras incompatíveis, crescimento patrimonial sem lastro econômico suficiente e a utilização da transportadora como verdadeiro braço financeiro da facção.
Nesta operação, a apreensão do celular de Ciro Cesar Lemos - indicado como operador central - trouxe para o MP e para a Polícia Civil ainda mais informações sobre a dinâmica de lavagem de dinheiro por meio da empresa de fachada Lado a Lado Transportes (ou Lopes Lemos Transportes). Isso abriu uma nova frente de investigação, sobre suspeitas de repasses financeiros e conexões com uma influenciadora digital de grande projeção nacional.
A partir das análises, o inquérito apontou que Ciro Cesar Lemos atuava na compra de caminhões, realização de pagamentos, movimentava recursos da cúpula do PCC, executava ordens de Marcola e Alejandro e administrava patrimônio em nome deles, o que o coloca como homem de confiança da liderança da facção.
As imagens dos depósitos que favoreciam contas de Deolane Bezerra Santos e Everton De Souza foram localizadas no aparelho celular apreendido na casa de Ciro César Lemos. Ele está foragido, assim como a esposa.
Print de conversa que cita Deolane Bezerra como participante de esquema de lavagem de dinheiro do PCC
Reprodução
Segundo a investigação, os valores provenientes da empresa Lopes Lemos Transportes eram destinados a Marcola, a Alejandro Juvenal Herbas Camacho Junior, e a seus familiares. Para as transações, foram usadas as contas de Everton de Souza e Deolane Bezerra.
A apuração ainda constatou que essa influencer possuía estreitos vínculos pessoais e de negócios com um dos gestores fantasmas da transportadora de cargas. Foi a partir desse material que nasceu a Operação Vérnix, terceira etapa da investigação, agora voltada a esmiuçar um esquema mais amplo de lavagem de dinheiro, com ramificações empresariais, patrimoniais e financeiras.
Os levantamentos apontaram a utilização de pessoas jurídicas, recebimentos de origem não esclarecida, circulação de valores milionários e aquisição ou vinculação a bens de alto padrão por parte de Deolane Bezerra.
Para os investigadores, a projeção pública, a atividade empresarial formal e a movimentação patrimonial eram utilizadas como camadas de aparente legalidade para dificultar a identificação da origem ilícita dos recursos.